Por Danielle da Silveira
Qual é o peso das memórias? Do que elas são carregadas?
Essa é a pergunta que paira sob a minha cabeça sempre que penso nesse documentário, afinal, o que são as memórias? Em uma aula durante a minha graduação, fui questionada sobre, de primeira, confesso que não tive coragem de pensar em nenhuma resposta, só depois pude compreender: elas são uma resolução.
O documentário de 2012 produzido por Petra Costa, cineasta também famosa pela obra Democracia em Vertigem (2019), traz em toda sua narrativa a tentativa desesperada em lidar com o peso de suas memórias, na tentativa de ter uma resolução sobre o que aconteceu e o que poderia ter sido feito de diferente para mudar o destino de sua irmã, mas também, nada mais era que uma forma de conseguir trazer uma resolução a dor do luto, promover por meio da arte aquilo que muitas vezes palavras ditas entre as lágrimas não foram capazes de explicar, ou seja, acredito que na realidade, mais do que tudo, o objetivo era trazer em forma de arte um memorial para tudo aquilo que Elena foi, mas que também poderia ter sido.
Mas afinal, do que se trata o documentário? Nesta obra de natureza melancólica e poética, somos apresentados à história de Elena, uma jovem que decide se mudar para Nova Iorque em busca de conquistar seus sonhos de ser atriz de cinema. Com o decorrer da história, vamos conhecendo aos poucos Elena, desde seu nascimento até a sua vida adulta. Somos apresentados também à sua família, seu pai que era um político alinhado à militância da esquerda, que inclusive foi cassado durante a ditadura militar, e também sua mãe, que era jornalista e socióloga. Posteriormente, somos apresentados a Petra, quem narra e conduz todo o enredo da película.
Através de suas memórias, conhecemos diferentes faces de Elena, como se estivéssemos descascando uma cebola ou retirando pétala por pétala de uma alcachofra para alcançar seu coração. Contudo, apesar de, enquanto estamos assistindo à obra, termos esse contato com tantas coisas da vida de Elena, a sensação que passa é que há lacunas. Afinal, estamos a conhecendo a partir de fragmentos de relatos de pessoas que conviveram com ela e de seu acervo pessoal protegido pelo tempo. Quem é Elena? E o que ela sentia de verdade? O tempo todo somos apresentados a tantas coisas delas, mas ainda se permeia o mistério, que vem como uma pequena dúvida que vai se penetrando e deixando de ser uma, passando a ser duas, três, quatro… e quando percebemos já estamos completamente perdidos, ludibriados em busca de entender o porquê, por que ela se foi? Por que ela fez isso?
Petra Costa assume com maestria o papel de nos fazer apaixonar por Elena, pela pessoa que foi apresentada a nós, as suas minúcias, o seu mistério, o seu talento e também as suas memórias. Acho que, por muito tempo, ela teve medo de não conseguir fazer um tributo que de fato valorizasse a memória de sua irmã, nem consigo imaginar o trabalho árduo em contar uma história tão curta e, ao mesmo tempo, tão cheia de vida e potencialidades.
O filme fala sim sobre morte e melancolia, todavia, engana-se quem pensa que é só isso, ele torna palpável o sofrimento, o luto e também o recomeço, a luta para manter-se mesmo quando tudo está despedaçado, desmoronando. Não é só sobre a Elena, mas é para a Elena. O tempo todo é jogado na nossa cara o quanto, para ela, sem arte a vida não fazia sentido. Se ela não podia produzir arte, então ela preferia morrer. Contudo, acho que o que mais me entristece é que ela não pôde perceber que não era ela quem produzia arte, ela era a própria arte, ludibriada de vida e de não vida, marcando a vida de todos que puderam ter acesso a uma mísera migalha de sua existência, inclusive eu, que só a conheci 34 anos após a sua morte. Por fim, acredito que já esteja claro, mas vou reiterar aqui o quanto eu de fato recomendo essa obra, uma vez que ela tem um jeito muito único de homenagear a vida e compreender o luto, como faces da mesma moeda. Ademais, é uma obra nacional que merece ser conhecida e aclamada.
Esta resenha faz parte da série Autores da Torre, do Projeto de extensão Torre de Babel, da Biblioteca José de Alencar (Faculdade de Letras/UFRJ)