Por Maria Clara Lanna
A obra “A metade perdida” (2021), de Brit Bennet, é uma ficção que tem como plano de fundo os Estados Unidos entre as décadas de 1950 e 1990. A autora possui esse e outros best-sellers, além de ser premiada algumas vezes.
Neste livro, somos apresentados a irmãs gêmeas, Desiree e Stella, nascidas no sul dos Estados Unidos na década de 1950. Fugidas da cidade natal, as irmãs decidem buscar uma vida melhor longe de todo o preconceito da sociedade em que nasceram, mas acabam se separando de uma forma incerta, até então. Percebemos que as irmãs, gêmeas idênticas, tinham personalidades completamente diferentes.
“À medida que cresciam, não pareciam mais um corpo dividido em dois, mas dois corpos unidos em um, cada um puxando para o próprio lado”.
Stella agora é casada com um homem branco e vive numa vida confortável, sem contato com nenhum integrante da família – seu paradeiro é desconhecido. Desiree se casa com um homem negro e retorna à cidade natal, contrariando o plano inicial feito com a sua irmã na juventude. Ela volta a morar na mesma casa em que as duas nasceram e convive diariamente com os vizinhos que elas juravam nunca mais encontrar.
“Nós, negros, sempre adoramos a cidade onde nascemos – argumentou. – Mesmo que sejam sempre os piores lugares. Só os brancos têm a liberdade de odiar o próprio lar.”
Acompanhamos algumas viagens no tempo ao longo dos capítulos, e nelas conhecemos as descendentes das protagonistas, que terão papéis importantes na busca do reencontro das irmãs. Suas filhas são responsáveis pelo encontro mais esperado por uma e mais evitado pela outra.
Temos assuntos importantes retratados na obra, como racismo e colorismo, por se passar nas décadas de segregação racial estadunidense, e também a transexualidade. Vemos as irmãs em debates externos e internos em busca de suas identidades, seus lugares no mundo e como a sociedade conseguiu diferenciar tão bem duas pessoas que nasceram com o mesmo rosto.
“O tempo estava se contraindo e se expandindo: as gêmeas eram ao mesmo tempo diferentes e as mesmas de sempre. Podia haver cinquenta gêmeas sentadas àquela mesa, uma cadeira para cada pessoa que elas foram desde a última vez que se falaram…”
O livro emociona, choca e faz refletir sobre a relação entre a identidade de uma pessoa e a ambição por se tornar alguém diferente. Mostra também aspectos culturais da localidade e da época em que se passa, que são imprescindíveis para o desenrolar de todo o enredo. Me encantei pela história e pretendo continuar lendo livros da mesma autora.
Esta resenha faz parte da série Autores da Torre, do Projeto de extensão Torre de Babel, da Biblioteca José de Alencar (Faculdade de Letras/UFRJ)